ROCHAS, VOZES E RITUAIS

SIGNIFICADOS MÚLTIPLOS NA TOCA DO INFERNO

Autores

  • Marcones Almeida Leite Instituto Federal do Piauí - Campus Floriano
  • Tamires Rodrigues Santana IFPI, Campus Floriano
  • Debora Cristina de Oliveira Carvalho IFPI, Campus Floriano
  • José Souza da Costa IFPI, Campus Floriano

Palavras-chave:

piauí, serra da capivara, Educação em campo

Resumo

Este artigo apresenta um relato de experiência didático-pedagógica desenvolvida por discentes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Floriano, durante visita técnica realizada nos dias 14 e 15 de junho de 2025 ao Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado na região sudeste do estado do Piauí. A atividade foi realizada no âmbito da disciplina Geologia e Paleontologia e fundamentou-se na concepção de educação em campo, que compreende o ambiente natural e cultural como espaço formativo. A proposta pedagógica da atividade ancorou-se nos princípios da interdisciplinaridade e na valorização do patrimônio material e imaterial da região, buscando promover a articulação entre os saberes científicos e tradicionais. O principal objetivo da visita foi possibilitar a articulação entre os conteúdos teóricos abordados em sala de aula e a observação direta de elementos do meio natural e cultural. Situada no Circuito Desfiladeiro do Parque Nacional da Serra da Capivara, município de Coronel José Dias, entre os diversos pontos visitados, destacou-se a Toca do Inferno, por sua relevância geológica, histórica, simbólica e ambiental. Tal abordagem teve como propósito favorecer a ampliação da compreensão sobre os processos geológicos e sobre a relação entre natureza e cultura, tendo como foco a Toca do Inferno enquanto espaço com múltiplas dimensões educativas. A fundamentação teórica do trabalho apoiou-se na teoria da complexidade de Morin (2011), que defende a produção do conhecimento por meio da articulação entre diferentes saberes, e nos estudos de Candau (2008), que enfatiza a importância da interculturalidade e da valorização das identidades culturais no processo educativo. As contribuições da arqueóloga Guidon (2003) também foram essenciais para a contextualização histórica da região, ao evidenciar, por meio de registros arqueológicos, a presença humana na Serra da Capivara há mais de 50 mil anos. A metodologia adotada envolveu práticas exploratórias e observacionais, como trilhas ecológicas, registros fotográficos, anotações em diário de campo e escuta ativa com pesquisadores e guias locais. Na Toca do Inferno, foram observadas formações rochosas sedimentares que atingem aproximadamente 200 metros de altura, além da presença significativa de óxido de ferro desprendendo das rochas, o que confere coloração característica ao local. Relatos orais compartilhados pelos guias locais indicam que o nome “Toca do Inferno” originou-se da crença de que algumas pessoas, consideradas dotadas de um dom especial, conseguiam ouvir vozes vindas do interior da caverna. Os guias também relataram que, no passado, rituais indígenas eram realizados no interior da caverna, destacando especialmente Maria dos Anjos, uma mulher indígena que tinha a caverna como lar. Nela, realizava rituais ao redor da árvore sagrada, preservando as tradições de seu povo. No entanto, após ser raptada e afastada de seu território ancestral, acabou se distanciando de vários elementos de sua cultura indígena. Ainda assim, Maria dos Anjos manteve viva sua ligação com a Toca do Inferno. Sempre que podia, retornava ao local e transmitia aos seus descendentes os rituais e conhecimentos que havia conseguido preservar. Por isso, é reconhecida como um símbolo de grande importância histórica e espiritual para a Toca do Inferno, sendo lembrada como uma guardiã da memória e da resistência cultural. A experiência permitiu a articulação entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais, resultando em uma prática educativa ampliada e significativa. A visita técnica ao Parque Nacional da Serra da Capivara, especialmente à Toca do Inferno, demonstrou-se enriquecedora por integrar aspectos geológicos, culturais e simbólicos. Constatou-se que práticas pedagógicas que utilizam o campo como espaço de aprendizagem são fundamentais na formação docente, pois promovem o desenvolvimento de uma abordagem interdisciplinar, crítica e sensível às realidades locais.

Arquivos adicionais

Publicado

21-10-2025

Edição

Seção

Resumos_Eixo 02_Ensino de Ciências

Como Citar

ROCHAS, VOZES E RITUAIS: SIGNIFICADOS MÚLTIPLOS NA TOCA DO INFERNO . (2025). Jornada Científica do IFPI - Campus Floriano, 5(1). https://eventos.ifpi.edu.br/index.php/anaisjcfloriano/article/view/1031

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