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BOI DA CARA PRETA DIGITAL: ARTEFATOS DE IA GENERATIVA E VIÉS ALGORÍTMICO NO CONTEÚDO INFANTIL

Resumo

Sistemas de Inteligência Artificial (IA) generativa, como modelos de geração de vídeo por difusão, são capazes de produzir conteúdo audiovisual a partir de padrões aprendidos em grandes volumes de dados de treinamento. Esse processo, porém, é suscetível à reprodução de vieses presentes nesses dados, o que torna relevante investigar o output gerado quando tais sistemas são aplicados em domínios sensíveis. Nesse contexto, o presente trabalho analisa três produções audiovisuais infantis disponibilizadas no YouTube que utilizam IA generativa para recriar o Boi da Cara Preta — personagem do folclore brasileiro originalmente transmitido como canção de ninar suave —, com o objetivo de identificar e caracterizar os artefatos técnicos de geração presentes nos vídeos e os vieses algorítmicos reproduzidos nas narrativas produzidas. A metodologia combina análise técnica de artefatos visuais de IA com análise de conteúdo audiovisual (Bardin, 2016), observando nas três produções marcadores reconhecíveis de geração computacional: no Boi de Gelo, inconsistências anatômicas do personagem entre quadros consecutivos e animações de respiração desvinculadas da expansão corporal; no Boi Exterminador do Futuro, falha de sincronia labial e alucinações de cor em extremidades, artefatos típicos de modelos generativos com limitações de coerência temporal; e no Boi Zumbi do Soninho, morfologia instável de focinho e chifres entre cenas, indicando ausência de controle de consistência entre gerações. Esses artefatos confirmam o uso da IA como ferramenta de produção — com autoria narrativa de origem humana — e não como sistema autônomo de criação. A análise de conteúdo revela que os modelos reproduzem, a partir dos dados de treinamento, associações valorativas problemáticas: o Boi Exterminador do Futuro vincula trabalho braçal a fracasso e punição, evidenciando viés classista de origem algorítmica; as demais produções amplificam mecanismos de medo e controle comportamental em intensidade desproporcional ao referencial folclórico original. Conclui-se que a aplicação de IA generativa na produção de conteúdo infantil exige, além de domínio técnico da ferramenta, avaliação crítica do output gerado, uma vez que vieses algorítmicos podem ser incorporados silenciosamente às narrativas e transmitidos a um público com baixa capacidade de filtragem crítica.

Palavras-chave

Inteligencia artifical generativa, viés algoritmo, artefatos de geração, análise de conteúdo de audiovisual, folclore digital

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